quarta-feira, 17 de junho de 2015

Morreu JOSÉ SARAMAGO: nasce a cegueira branca

Em momentos específicos, penso na morte. Hoje penso na morte. Morreu José Saramago! No caso de nossa família, quando alguém morre, outros bebês nascem. Não é substituição, apenas numericamente não há diminuição. Num conjunto de 20 pessoas, um morto. Total: 23 pessoas. Como assim? Não há faltas numéricas, já estamos multiplicados, já estamos dobrados ou triplicados, já vivenciamos a descendência. Ou seja, numericamente nos mantemos em mais lugares, já estamos em mais lugares. Porém emocionalmente precisamos nos repensar. Mas morreu José Saramago! Emocionalmente, nem o tempo SARA isso. Há uma cultura imaginativa com o qual não mais lidaremos. Há uma narrativa ficcional que não mais nos alertará sobre o mundo e suas perversidades. Há uma MAGIA visionária que não mais nos manterá longe de um forte glaucoma. Depois de Dom Sebastião, Luis de Camões e Fernando Pessoa, Portugal perde outro braço importante de vida. Depois de dominar os mares em parceria com a Espanha, Portugal precisa, de novo, rever o grau dos seus óculos territoriais e ficcionais. Estaria desaparecendo? Portugal e o mundo ficam menos sábios, lúcidos e sem vínculos. Os escritores respondem por boa parte de nossa visão de tudo. Suas narrativas criam revisitações imaginárias sobre a realidade que impede a cegueira das vaidades ou das tradições por um longo tempo. Suas palavras traduzem nossos contrapontos, contragostos ou virulência em relação ao outro como uma pancada no queixo. Nenhuma homenagem será suficiente a este escritor que passou a vida nos homenageando com sua criticidade ferrenha e sua verdade obstinada. Nossos olhos ficaram ainda mais embaçados. No meio da ‘diferença entre estar aqui e já não mais estar’, estamos nós, os pedintes, os necessitados, do susto de outra perspectiva sobre nós mesmos e o mundo em que vivemos. Perdemos a imaginação lógica, a imaginação que raciona inesperadamente sobre os comuns e suas tentativas de sabedoria. Para que lugar Saramago foi? Para o campo das idéias surpreendentes, ainda que rascantes. Saramago está do outro lado da moeda em paz e livre de um mundo cego e cheio de empáfia. Morreu José Saramago, depois de uma luta literária ferrenha, depois de deixar marcas para sempre, depois da vida simplesmente. Morreu José Saramago, mas não desapareceu: abriu uma cômoda confortável no céu, se esticou e está debochando dos cínicos religiosos que aqui ficaram. Estamos à mercê dos ‘maus costumes’, das ‘alegorias’ interesseiras, das promessas de céu eterno. Estamos à mercê da falta de criatividade, criticidade e argumentação. A literatura perdeu mais um ponto de diálogo com o estranhamento, com a controvérsia inteligente, com a indignação objetiva quanto aos desmandos políticos, sociais e religiosos. Ele, como narrador único (nunca se disfarçou em outros), determinou um fluxo contínuo (e voraz) de acompanhamento e de pensamento sobre as nossas maiores injustiças. Morreu Saramago, nosso zelador (diz Chico Buarque), nosso curioso, nosso formador, nosso literato da língua, nosso humanista, nosso homem mais questionador e mais polêmico quanto aos ‘caminhos da sociedade capitalista e o papel da existência humana condenada à morte’. Dezoito de junho de 2010 apresenta-se, em nós, mais uma deficiência: a cegueira. Socorro, a infecção branca começou!!!!!!!!!!!

Claudia Nunes 2010


ILUSÕES COMUNS

Num descampado, a luz do céu ilumina cada recanto da mata. As nuvens se embaralham e encantam os passarinhos. Estou andando na grama e assustada com as emoções conturbadas que me atravessam. Há uma desorganização tão grande no meu olhar que as cores da Natureza se esvaem. A loucura das relações me tirou do prumo e, sem poder de escolha, saí a esmo pelas liberdades de um dia desconhecido. Não consigo chorar... Não consigo falar... Apenas um passo de cada vez e as cenas passadas me perturbam e me matam. Não gosto de perturbação... Não gosto dos descontroles... Gosto dos meus pensamentos, limites, sentidos e suspiros. Gosto do que é meu, pronto! Porém, um dia, distraída, fiz uma dupla: alimentei corpo, sangue, dias e mente. O mundo estava dobrado e ampliado: agora, era ‘nosso’. Cada registro era uma surpresa, uma prova, e eu acreditei em extensões: meus braços podiam alcançar tudo e a mim sem pudores. Às vezes chamam isso de maturidade. É fácil suspirar a liberdade da cama. É difícil compreender os limites da casa. Eu fui nós, mas, sem reparar ou cuidar dos nós, dei linha na experiência por fraqueza e franqueza: era preciso viver. Hoje meus pés são tristes e meus olhos os acompanham: é o fim. Sem um fato, o processo é incoerente, suado e cheio de desvios de terra batida, sem árvores e nenhum som. Quero ocupar de novo meu lugar de eu, mas me perdi completamente. O labirinto é fechado e eu só posso crer numa salvação sem direção. Eu serei salva? Eu espero... De qualquer jeito, eu sempre espero... É uma passividade ativa: por dentro, no orgânico e no imaginário, há movimentos. A cabeça vai e volta, procurando... O olhar sobe e desce, indecente... Eu daria tudo por um espelho: é a calma de antes. Porém tudo está aos pedaços e doendo na pele. De repente, um susto: uma poça d’água me guarda em segurança... Sem ponto de contato ou pensamento, mergulho...


Claudia Nunes 2010

FAXINE-SE

Fim do ano. A aura do tempo começa a mudar de cor. De um vermelho intenso ao branco iluminado, os pensamentos estão abertos às promessas, às escolhas, às imaginações. Em casa, o olhar assume uma tarefa: faxina. No corpo, coração e mente querem mais espaço para viver novas (a)ritmias. Se é difícil se transformar, que tal mudar os objetos de lugar? No armário dos cômodos da casa e nas gavetas do cérebro, tudo o que estiver socado deve sair, se abrir, ganhar outros usos ou mesmo chegar ao lixo, sem titubeações. Roupas, sentimentos, livros, ideias, papéis, certezas têm sua hora de renovação. É uma luta. Desapegar é uma dor. Assusta pensar em mexer nas coisas. De cada porta aberta surgem memórias de outros tempos. Problemas, profissões, ações, a rotina da vida está guardada como lembrança querida, mas no fundo, quanta inutilidade, quanto peso! Faxina necessária! Faxina intranqüila! Faxina cautelosa! Depois do olho, a mão invade a escuridão e começar a tirar as coisas do lugar. Tanto a alma quanto armários e gavetas vão se esvaziando. Nada passa sem o crivo do olhar, da lembrança e do olfato. É..., o olfato é um bom vetor das outras vidas, preste atenção! Em cada respiração, em cada suspiro, as energias alcançam espaços importantes. Faxine os livros que não leu. Faxine os bibelôs que os amigos desaparecidos ofertaram. Faxine a falta de piedade. Faxine as impaciências. Faxine o mau humor. Faxine as músicas insensatas. Faxine os atrapalhamentos e desarmonias que colocaram diferentes amigos num horizonte sem fim. As atitudes devem dar plasticidades às promessas, ao fluxo dos novos encontros, ao peso de outras posturas. Se o amor não deu certo, se o trabalho está estagnado, se emagrecer é difícil, se uma amizade resiste a um retorno, se não se consegue compreensões, se não se deseja ir ao cinema, esquece! O corpo não é um baú de ossos antigos. Faxine-se! Com dois braços, alcance múltiplos espaços e traga as novidades, sejam quais forem. Em um ano, se vc não se tocou ou foi tocado, faxine-se! Não há culpa, não assuma depressões, doe-se! As paredes devem ser vistas. Os neurônios devem realizar novas sinapses com mais liberdades. As mãos devem tocar outras pessoas sem asperezas. As prateleiras devem ter lugar para outros objetos. Casa e corpo não são museus com links paralisados pelos tempos. Em um ano, a vida acumulada já apresenta data de validade? Aquela dor precisa de outro remédio? As faces precisam de outros cosméticos? O corpo precisa de outro perfume? As revistas têm textos desatualizados? Aqueles jornais não servem mais? Faxine-se! Lustre-se! Gotas de cânfora diluída em álcool e... energize-se! Não leu, não amou, não foi amado, perdeu oportunidade, fez silêncio? Esquece! Gotas de amoníaco na água e... devaste os (pré)conceitos! Para cada esvaziamento, outros aromas, sorrisos, opções, desejos. É esse toque especial que diminui a tensão de tantos sacos cheios de lixo no chão das lembranças. Não duvide da própria capacidade. Não desista por antecedência. Não canse. Dos absurdos, insólitos e desconhecidos também se tem a possibilidade de recomeçar. Faxina é a chance de ir além de um esboço de si mesmo. Faxina é a oportunidade de revisitar-se. Faxina é a retomada do que é simples, prazeroso e agradável em todo lugar. Já tentou um novo cabelo? Uma nova amizade? Um novo caminho? Um novo sentimento? Uma nova aproximação? Outro silêncio? Outra escuta? Outro abraço? Outra verdade? Experimente e reinvente-se. No fim do ano, pense grande, pense melhor, pense na luta, pense nas pessoas, pense no futuro e reinstale no cotidiano o frescor da alegria, da paixão, da liberdade. No fim de tudo, de cima para baixo, a leveza vai lhe encarar e perguntar: vamos nos emocionar de novo?
Claudia Nunes



EU, OUTRO, NÓS..

Escrever é um alívio! Aos poucos retomo minha escrita. Aos poucos consigo incorporar em diferentes linhas, minha carga pesada. Aos poucos os outros vão sendo eu. Engraçado essa coisa de analisar o outro. Quem é esse outro? Quem é essa figura tão misteriosa? Hoje me sinto incomodada com as duas pontas de toda relação: Eu e o Outro. Hoje não sei mais se há pontas. Se houver, só o sentimento os une. Como sinapses, tudo se liga, mas nada (se) encosta. Definitivamente, não sei lidar com os sentimentos nem do outro, nem de ninguém. Alguém tem o “caminho das pedras”? Não há critérios nessa onda de experimentações que fazemos ao longo da vida. Só há investimentos no escuro. Certeza: só provamos pessoas! As convocações são por conseqüência, nunca por causa. E o depois vai ser depois, mesmo!
Todo ritual de conquista propõe formar “uma laranja inteira”. Esquecimento: há outros, somos outros, de um. Somos os outros para os outros. Logo só temos Outros como Todos nós. Então: viver é lidar com Outro, nunca com Eu. Carregamos um andor que somos nós mesmos cercados por uma multidão que são os outros. Mas, e para o Outro? O Outro somos EU. Ufa! Que dificuldade! Que confusão! Enfim, a ligadura de todos os tipos de afinidades está no conjunto dinâmico de Outro. Aí surge a pessoa integral do NÓS.
Isso é um achado? Negativo! Redundantemente o “NÓS” tem complexas possibilidades de SER. E uma delas são os SENTIMENTOS. Perde-se o sentido da posse. Anseia-se pela invasão de mundos. Sente-se ameaças constantes. Não há lugar para soberbas. Passado o primeiro momento de paixão, o que se tem é a meditação, o cuidado, a observação, tudo o que desejarmos para nós mesmos. Não há um sentir isolado. No fogo dos sentimentos cabe todo mundo, mesmo os mais inocentes. Esqueçamos as isenções ou neutralidades. Equação simples: ver + ouvir = sentir. Mas tudo seria tão simples assim? Não creio... Hoje eu não creio nem que exista simplicidade. Tudo são grandes teias em que fomos fisgados se a intenção é amistosa ou amorosa.
Não devemos sentir POR ninguém! Não é justa a existência de masoquismos. Cada um “sabe a delícia e a dor de ser o que é”. Até o fazemos por proteção, mas “nada dura para sempre”. Em toda parte, a metáfora do espelho nos joga na cara o nível de nossas capacidades e habilidades no trato com as “coisas” dos outros. Impossível qualquer transferência. É preciso medidas, limites e algumas negações. Estar do lado, ser parceiro, ter uma forte ligação, não desloca sofrimentos ou constrói culpas. Afinal, todo sentir tem uma razão e é isso que devemos (podemos) APENAS saber. A dor que dói doerá pelo tempo. Ninguém sabe sua exata medida, só quem se perdeu (perde) em suas próprias brumas de maneira anestesiante.
Hoje encontrei um amigo e só quis sentir a mim. Os primeiros instantes do encontro me atrasaram no tempo. A impressão era que eu já tinha passado por aquilo. Muitos meses nos desuniram, porém tudo acontecera no segundo anterior. Fiquei entre “puxa...” e o “deixa pra lá”... Ontem encontrei outros amigos e “nada será como antes”. Muita surpresa! Muitas falas desgostosas. Muitos assuntos de riso e indignação. Fermentava a vontade de renovar as alegrias do passado e desdobrá-las pelo futuro. Nos dois momentos calei alguns pensamentos e deixei a fruição do presente tomar conta do ambiente. Não há eficiência possível. Falar trazia à cena os sentimentos de todos e eu não queria os meus servidos ao molho de vinho tinto.
Adoro os meus amigos. Mas, da glória à tragédia, tantos problemas quase me anularam. Esse é o pior momento: quando sentimos os sentimentos do Outro. É possível até ter culpa do que não deu certo. A cada um que revela momentos de sua vida, há outro antenado para tirar proveito e... julgar. Isso dilacera, quando descoberto. Abrimos o baú de ossos e os escaninhos do cérebro, e isso me fez refletir sobre a figura do Outro. Mil razões os aproximaram de mim, se instituíram como meus tesouros de vida. Mas, no mínimo, só posso/pude intermediar. O sentimento do Outro é uma ponte que nem sempre sabemos construir em nosso imaginário e, se o fazemos, haverá o dia em que não agüentaremos o peso, aí é “ver pra crer” e “seja o que Deus quiser”. Não sei se reconstruções ou desabamentos, só sei que a dinâmica das relações está emparedada entre esses dois substantivos tão significantes.
Todas as histórias dos meus amigos são fortes, concentradas, heróicas, mágicas. Meu amigo tem o dom de iludir. Meus amigos têm a sagacidade da percepção. Nas duas situações, eu observo o nível da confiança. E chego a conclusão de que os sentimentos dos Outros projetam diferentes padrões de confiança. Ninguém é “a verdade e a vida”. O outro faz de nós o outro e, portanto, ele mesmo, aí é difícil confiar, ser verdadeiro, amar. Aceitar essa minha impressão é negar conflitos, humilhações, ataduras e esparadrapos existenciais. Aceitar a luxuria da convivência é aprender a comportar-se bem.
Ao retornar solitária para casa, percebo que, por muitas horas, esqueci de mim e atendi aos sentimentos dos outros. Preciso de banho. O que é limpo espelha. E espelho amedronta. Deito em meus lençóis brancos finalmente... Como estão meus amigos?

Segundo Artur da Távola, “o sentimento do outro é o conteúdo do amor ao próximo.”
Claudia Nunes 2007


ESPELHO D'AGUA

Hoje decidi caminhar na lagoa. Nunca fiz isso, muito menos sozinha. Mas hoje decidi: quero esta experiência. Parei o carro, comprei uma água com gás e saí andando... saí pensando. Problemas todos têm, mas que lugar lindo! Respirar aqui é fácil e prazeroso. Caminho a esmo e ao contrário dos carros. Quero ver tudo de frente. Gente correndo, pedalando, comendo, bebendo, rindo, conversando, fazendo ginástica. Gente de todos os tipos e com todas as cores possíveis nas roupas. Muito interessante! Um mundo em movimento. Ao redor da mansidão do espelho d’água, há um movimento intenso em busca de felicidade, saúde e relaxamento. Eu me sinto meio mal e começo a caminhar dentro de um padrão rítmico só para parecer também em movimento saudável. Inclusão também é isso, não é? Bem, uma caminhada sempre ajuda a criar, a pensar e, principalmente a me distrair. Estou em outro mundo, por dentro e por fora. Ritmo, saúde, respiração e brisa, eis a fórmula do meu desejo de deslocamento e nem percebo as marcas dos meus passos. De repente, algo me desperta duramente: perto da água, uma pessoa parada. Estranho... Tanta vida pulsando ao redor e em muitas direções, mas há um ser parado: uma mulher. Não consigo continuar. A mulher olha hipnótica ao espelho d’água. Há lágrimas em suas faces e isto me preocupa. Gente que chora é gente emocionada; gente emocionada está em desequilíbrio; e em desequilíbrio pode fazer qualquer coisa. Será um prenúncio de um suicídio? – penso eu. Fico apreensiva e me aproximo pé ante pé. Sinto que me fiz presente. O som do choro diminui. E ambas nos olhamos. Não há o que falar, há o que respeitar. Em silêncio olhamos o brilho e o movimento d’água. Qual é o segredo? Sem sentir, penso em espelhos. Que relação é essa? Por que espelhos? Eles criam dobraduras de nós mesmos. Eles nos invertem e transvertem sem licença ou aviso prévio. Por curiosidade, estamos dobrados. De alguma forma, os espelhos estão em todos os lugares. Mas no princípio era o lago. Deparar-me com meu próprio reflexo dependeu da presença do lago, de algo fluido, sempre novo e ‘impalpável’. Essa representação paralisa e me deixa à beira do precipício. Estou na outra margem do meu rio sem pudores. Não é fácil porque ele realiza sonhos sem atravessadores. Em imersão, não são mais os outros que me vêem e / ou me especulam, sou apenas eu ao quadrado. Em sinergia com o espelho ‘mim sou mim’ claramente. De novo, não é fácil. Ninguém está preparado para isso. Não há equipamentos para que eu lide comigo mesma. É verdade demais! Sem restrições, eu me agacho e sento na grama. A mulher me acompanha. Não nos dizemos nada. Ambas estamos ao nível dos nossos imaginários e sem nenhuma presilha. No espelho d’água, o ideal é saber imaginar. E esta é uma briga feia porque vivenciamos ações antagônicas demais: libertar e prender. Verdade e ilusão têm um mesmo tempo de acontecimento. Daí a dúvida: frente e verso ou frente em frente? Não há como saber. Um campo novo para exploração é sempre sedutor e amedrontador, mas quando o prazer está em jogo opta-se sempre pelos arrepios da mente e da pele de qualquer jeito e por qualquer motivo. Surge uma nova atitude: meu autorretrato. Mas este tem uma falha: estamos satisfeitas porque, diante do espelho, não há Outro. Esquecemo-nos que, no trânsito das mais sutis lembranças em nosso corpo e memória, há a realização de uma participação feroz do Outro, logo o mundo realmente somos nós! A mulher pára de chorar e me olha. A situação se inverteu. Em sua face, uma preocupação: o que acontece? Será que ela precisa de defesa ou de ajuda? – ela pensa. Estou tão encantada com meus olhos e novos focos que não percebo a mudança dos ventos. Quantos segredos, desejos, necessidades e medos. Neste momento, minha compulsão é por mim mesma. No espelho, um baú de pirata se abre e, de outros tempos, muitos ‘mins’ me atacam. Estou abduzida por um ‘mim’ sob pilotis, mergulho nisso sem bóia e me espalho. Sem perceber, a mulher segura minha mão: não vá – ela diz. Eu me debato diante daquela mão quente que cisma em me prender. De novo, eu escuto: não vá! Estou de frente para um querer sem fim porque há luzes atraentes em todo o lugar. Que lindo! Meus ouvidos doem com os pedidos cada vez mais altos da mulher: não vá! Mas não há ângulo para retornar ao mundo dos homens. Sem perceber tenho pontas em todas as direções e quero todas. Se vou retornar ao mundo real, que eu faça com tudo o que for meu: amor, carinho, alegria, consideração, respeito, conhecimento, objetivos. É tudo meu e o mundo precisa (me) reconhecer! Muitas tentativas, grandes fracassos. Minha alma começa a sentir falta de alguma coisa: a magia. E magia, leia-se expectativa, tensão, espera, emoção, superação, conquista. Como Narciso, estou consumida por mim mesma, pela liberdade de ser, pela falta de freio. Sem agitação sinto o corpo dormindo e me assusto: será uma nova prisão? Só voar não me complementa. Como sair? Como sair? – me pergunto. Repentinamente um abraço forte me sacode. Estou amparada pela mulher. Há um choro secular borbulhando em mim. Outra vez, eu e a Razão estamos felizes para sempre.


Claudia Nunes 2010

ERROS DE LEITURA...

            O cotidiano é um acervo de idéias surpreendentes. Cheguei a essa conclusão, olhando as pessoas na praça de alimentação de um shopping no subúrbio do Rio. Sentada, olhei ao meu redor e observei múltiplas situações. Quase todas envolviam sentimento / emoção. Casais estavam sentados em pontos estratégicos e todos, em sua maioria, estavam discutindo a relação. Como sei? A linguagem não-verbal é claríssima! Aí, pensei o seguinte: só se quer discutir relação quando “deslizes” foram cometidos e estes, criando “um clima”, agenciam as diferenças de personalidade e de posturas diante de cada realidade. Dando asas à minha imaginação, pensei em meu círculo de amigos; em seus afetos, algumas vezes, nada tradicionais; e nos desgastes que esses mesmos afetos proporcionam internamente a cada um deles.
Quando temos amigos participamos direta ou indiretamente de suas histórias de vida. E as histórias mais interessantes são as que envolvem paixões, amores, afetos dos mais diferentes tipos. Cada início e fim de relação têm momentos de transição em que acreditam que “nunca mais cometerão o mesmo erro!!”, ou que “da próxima vez, serão mais inteligentes!!”, ou que “não deixarão ninguém agir assim com eles de novo!!”. Enfim, investir em novo projeto de vida afetiva é tentar não cometer, pelo menos, os mesmos erros da relação anterior.
            Meus amigos observam que, se tivessem feito isso ou aquilo, a história do casal, possivelmente seria outra. Fora do redemoinho das grandes paixões, fazem um levantamento, agora mais crítico e criterioso, de suas próprias ações e percebem que houve um erro de leitura: um erro de leitura do outro, das situações, leitura do que realmente queriam, leitura de si etc. Em função disso, promessas tornaram-se impossíveis de cumprir. Se a leitura foi errada, as promessas, frutos desses momentos, tornaram-se inócuas, tornaram-se palavras ao vento, tornaram-se infrutíferas.
            Diante disso, minha imaginação foi mais além: o que é leitura afinal? o que é ler afinal? Por que erramos tanto em certas avaliações de mundo, de textos, de pessoas, de nós mesmos? Que elementos atravessam nossa mente nos levando a erros só percebidos tarde demais? Dessas dúvidas, outras mais profissionais se apresentaram: por que a maioria das pessoas diz que não gosta de ler? Ou seria essa afirmativa uma certeza vinculada por um poder que não se quer lido? Ou não gostar de ler se refere apenas a livros, a escrita, a palavra, e não a sentimentos, já que o que mais se faz é “discutir relação”?
            Aí está a razão do corpo desse texto: a leitura

            Em todos os tempos demarcados ou não pelos livros de história, o ser humano se apresenta como produtor de signos. Os signos incorporam as diversas peculiaridades de uma comunidade e tem a sua concretização na comunicação. Signos são maneiras de comunicação, são formas de reconhecimento de um grupo de pessoas. Não se lê o que não se entende. Não se vive onde não se reconhece. Reconhecer é perceber o mundo. Perceber é criar imagens. Imagens são representações das mais variadas formas de ser. Ler seria, então, a conjunção dessas diversas formas de ser, seria uma estrutura linear convocada pelos sentidos para ligar indivíduos a objetos, indivíduos a situações, indivíduos a indivíduos, com extrema criatividade.
            Enquanto esses signos circulavam em torno de um só grupo, cresceram os diversos tipos de linguagem já que, no mundo, existiam muitos grupos espalhados, cada um com seu estilo. Porém outra necessidade se apresentou: quem é o outro? E essa pergunta só pôde ser respondida, na correlação e inter-relação de todos os signos de cada grupo. Isoladamente o ser humano era um só, no grupo ele passou a ser o todo. Os signos inauguraram uma relação de força na medida em que, mesmo levando em consideração as diferenças, houve a necessidade das relações, principalmente, comerciais e, nesse contexto, os signos passaram a ser identificáveis por todos.
            A oralidade determinou as diferenças. A escrita incorporou a igualdade. O saber do outro passará a fazer parte do meu saber, do saber humano, também. Na medida em que sei o outro, sou, então serei sempre mais do que um. Mas para isso há a necessidade da leitura, de ler, de saber ler. Há que se interpretar os vários sentidos a partir de um mesmo objeto, situação ou pessoa e, nesse processo, construir uma sociedade, por exemplo. E essa leitura poderia ocorrer a partir de gestos, cores pintadas no corpo, danças, tipos de mímica, figuras gravadas na pedra ou nas cavernas, e até em pergaminhos (chegamos ao papel). Logo se vê que, para uma simples leitura, sempre houve muitas "mídias", muitas "tecnologias" possíveis. A possibilidade de erro é imensa! O erro é humano!
            De outro lado, observando a história brasileira e mundial, por que só a mídia "livro" se tornou tão importante em detrimento de outras formas de obter informação / conhecimento? Se pensarmos em jogo de poder, estaremos no caminho certo e "desnovelando" as perversidades a que somos submetidos por esse mesmo poder em nome de uma crescente formatação do saber. O livro, então, configura-se como um objeto limítrofe (formatado, organizado, fechado) onde sub-repticiamente são propaladas mensagens de dominação. As palavras estimulariam a negação de qualquer forma de rebeldia. O conteúdo ficcional seria manipulado visando uma crença na estrutura vivida na realidade. O contexto separaria mundos: um mundo das ações possíveis e um mundo das atitudes reprimidas; um mundo onde se dá vazão ao imaginário e um mundo medido pelos ditames sociais; dentre outras subdivisões.
            Acreditou-se (acredita-se) que a palavra escrita, delineada através de regras pré-estabelecidas e concentrada em um único objeto, aliviaria o ser humano da "perda de tempo" que é a pura observação, ou seja, que é viver a vida. Nisso, acreditou-se também que, dentre todas as manifestações artísticas, a literatura fosse a forma literária com mais capacidade de simplificar as leituras de mundo a que somos submetidos a toda hora por ser o lugar das análises, das críticas, das avaliações da realidade como um todo. O que antes foi criado para dar força, hoje desestabiliza a percepção individual. O que antes foi criado para se entender as diferenças, hoje elimina o diferente. A concentração de simbolismo, retórica, metáforas, subjetividades etc., hoje "enche o saco". Por que? Porque o tempo é outro. Se o signo anterior era produto, mercadoria, lucro, agora se acrescenta a tudo a velocidade. Outro erro perfeitamente humano...
            Idéia: Aprendemos a ler no confronto com nossas próprias experiências. Aprendemos a ler na prática da vida. Até porque, mesmo na leitura do texto escrito, exige-se todo um sistema de relações interpessoais, entre várias áreas do conhecimento, de forma contextualizada, para construir um certo conteúdo. Enfim, aprendemos a ler, lendo. Sendo. Curiosos, vamos ao mundo para alimentar nosso imaginário, fazer marcas indeléveis em nossa mente, criar memória e romper com quaisquer estruturas. Mas onde se instalaria o erro de leitura? Ou, de onde ele viria? Em/de nós mesmos, nos sentidos que incorporamos aos objetos / pessoas pela posse ou diante da convivência. Nesse processo nos esquecemos. Apagamos. Formamos um mecanismo de defesa justificado na imagem de alegria, de paz, de certeza, de verdade que esse objeto ou pessoa passa a representar. Queremos a imagem, lemos às imagens que produzimos sobre as coisas, não as coisas. E nos comprometemos. A velocidade com que nos envolvemos faz da leitura um erro. Não há diálogo, há expectativa, há espera, há suspense.
            Diante disso, podemos responder porque não gostamos de ler? Sim! Não gostamos de ler porque vivemos um mundo em que o olhar pode ser capturado por tudo ao mesmo tempo e diante do qual temos que fazer certas escolhas em detrimento de outras, rapidamente. Fazer escolhas é rejeitar possibilidades reais, pelo grau de importância, pelo uso dentro de uma realidade e/ou pelos objetivos de vida preestabelecidos. São escolhas feitas por uma necessidade instantânea. São escolhas aventureiras. São escolhas arriscadas. Pensar torna-se um processo fantasioso de conhecer. Não gostamos de ler porque não temos tempo para ler. Não gostamos de ler, porque privilegiamos ainda o racional em detrimento do sensível e do emocional. Esquecemos que se lê com os sentidos, com as emoções e também com o intelecto.
O verbo ler deve voltar a ser uma ação a partir do qual haja interação entre "imaginação, criatividade e personalidade", e isso com um olhar voltado para todas às manifestações artísticas, profissionais, pessoais e, principalmente, individuais. Com isso, os interesses se multifacetarão e o saber reflexivo poderá ser construído a partir de toda e qualquer visualização de mundo, já que as interpretações tornar-se-ão intrínsecas, integrais e intensas.
Dentro de uma relação pessoal (ler a relação dentro da relação), por exemplo, o que se entrega é o que se tem, é o que se pode, é o que se quer. Não sejamos ingênuos em pensar que haja indução de qualquer parte para fazer isso ou aquilo, sentir isso ou aquilo, afinal escolhemos quais serão nossos encontros essenciais. Numa relação apaixonante (nossa linha inicial de pensamento nessa escrita) isso é ilimitado (acredita-se). Há uma interação tendendo para o desaparecimento. E é justamente aí que precisamos ter todo o cuidado... A satisfação da entrega incondicional provocará erros de leitura. Os sentidos achatarão o intelecto e as imagens representativas do momento serão tomadas como verdades. Veremos o que ansiarmos. Veremos o desejo, o nosso desejo. Interagiremos fielmente com nós mesmos. Até o outro sumirá. A leitura será sobre o desejo de nós mesmos. A leitura será sobre o outro que somos nós. Atenção: o outro lado do espelho também constrói um EU.
Enfim, erros de leitura são leituras de um eu-em-desejo, são erros para a imagem que olha o espelho, são acertos para a imagem do espelho. É uma questão do lugar de onde se olha. Compartilhamos, convivemos, trocamos, nos relacionamos, mas somos sempre um e um, o outro, a alteridade, é uma criação do EU em função de se dinamizar e se movimentar no diferente, no espaço diferente, no tempo diferente. De quem nos aproximamos? Dos iguais? Nunca! Quem nós chamamos de amigos ou amantes? Os iguais? Jamais! O outro é aquilo que nos diz ao contrário. O outro realiza o imaginário do EU. O outro, por fim, sendo assim, é o mais querido, é o mais amado, é o mais desejado.
Erros de leitura são possibilidades de se ser a partir da criação do outro. Nós temos erros de leitura? Não! Estes acontecem em alguns momentos em que somos Outro.
            Conclusão? Todos gostamos de ler! Lemos o tempo todo! Eu, nessa praça de alimentação, estou lendo as pessoas como possibilidades de mim. Os cincos sentidos são meus referenciais para leitura e se sofisticam no desenvolvimento cognitivo humano. Eles nos dão a conhecer o que gostamos e o que não gostamos. Não são impressões vãs. São possibilidades-base para a construção de condições reais de interferência na dinâmica do mundo, das pessoas, dos objetos (livro, p.e.) e de nós mesmos. E o erro faz parte, pois estabelece novos parâmetros, novas diretrizes para os próximos passos em busca de novas leituras.
            Erremos então...


Claudia Nunes 2008

DEJEJUM de EMOÇÕES / DUAS IDADES

Mesa do café posta. Depois de muitos anos, a variedade de alimentos em frente a Lício era muito interessante. Ele não tinha se dado conta, mas sua vida dera uma guinada forte: o dinheiro entrava. A monotonia dos dias correndo atrás de dinheiro, descanso e felicidade mudara; agora a monotonia era tudo. Ele não precisava mais nada. Ele não tinha ‘que’ nada. A regra era escolher, optar e construir o dia como desejasse. Valera à pena? Hoje não era dia de respostas complicadas. Não tinha tempo para isso. O café fumegava a sua frente, tipos de frios se ofereciam aos seus sentidos e estômago, e, pelo menos três tipos de sucos surgiam para ele num grito primitivo de sobrevivência. Que difícil escolha! Que desperdício poder escolher tanto! Havia música no ar. Música vinda dos outros apartamentos. Música que ocupava sua varanda e o deixava ‘ligado’, ligado na vida, na vida do outro. Pensar na morte da bezerra era o princípio da loucura, mas era o melhor a se fazer correndo poucos riscos. Nada de caminhar para o trabalho, ir à academia, tomar banho ou ver televisão como máquina de produzir suor. Era preciso comer e respirar. Diante do desjejum, Lício precisava se esforçar para entender que o movimento dos pulmões não era banal. O café da manhã continuava gritando e não afetaria só o estômago. A energia era preciosa e ocupava todo o corpo. Lício estava emocionado, tão emocionado, que sua pele arrepiava, arrepiava e arrepiava aleatoriamente. Será isto alegria? Saudade? Autoconfiança? Satisfação? Sem jeito, começa a comer, mastigar e sentir. Não há nada sem a menor relevância. Ele pensa em meias, em limpeza, num filme, no beijo, na nova TV e a plenitude vai chegando. Como levantar e sair deste enlevo? Como perder este tempo e essas emoções tão suculentas? Além de mastigar, fecha os olhos e seu corpo (parece) ganhar espaço e dimensão. É um abraço à realidade. Ele arruma a mesa, olha de soslaio ao redor e vibra com a brisa que brinca com seus cabelos até o próximo orgasmo da imaginação.

Claudia Nunes 2010



DUAS IDADES

Hoje eu estava pensando em relacionamentos. Engraçado né? Todo mundo quer independência, mas quase todo mundo deseja parcerias de vida... e parcerias de vida inteira! Desde cedo, há todo um esquema social montado ou pré-moldado para o acontecimento de determinados eventos de vida. Estou dirigindo pela orla do Flamengo e vejo, passeando, diversos casais arrulhando como pombos. Interessante é que se você se aproxima tem a nítida sensação de que ou o amor tem limites, ou não há peles compromissadas. Os olhares estão turvos e o calor das ações são realizadas com pouquíssimos encantamentos. Não me interesso mais por questões de gêneros, acredito no bem estar, mais do que na felicidade. Então, por que as pessoas aceitam para ficarem juntas apesar de qualquer coisa? Não sei, nada me vem à memória. A idéia parece ser curtir, ficar, namorar. Ambos de alguma maneira confiam desconfiando, mas seguem de mãos dadas pelos dias supondo o próximo prazer. Meses ou anos tornam-se tempos que não refletem estabilidades a ninguém, mas o ideal é TER alguém. Parei e estacionei numa praça com carrocinhas de sorvete. Estou com um dilema: o que essas pessoas sentem? Onde apontar a emoção da paixão? Difícil... Um casal de idosos chama a minha atenção. Ela chora. Ele olha para o nada. Ela olha para dentro. Ele olha para o outro lado. Ficam ali, sentados, sem reação, mas abraçados e se amparando. O que será que aconteceu? Eu precisava saber: o que será que houve? Imaginei: depois de anos, eles descobriram novidades do corpo e da mente. Nas peles enrugadas e nos cabelos em neve, todo o esforço para construir uma história. Foram amantes de outras pessoas e, na ponta da vida, se comunicam, dialogam sobre o que não puderam ser. Suas histórias hoje causam dramas esquisitos. Eles não se conheceram nunca? O que teria acontecido? Orgulho? Vingança? Esperança? Solidão? Os velhos choram uma vida de esguelha. Do meu banco, eu via um rito de passagem para o mundo real. Discretamente, levantei e me aproximei. Ao invés de triste, eu estava empolgada com a possibilidade de saber. É infantil, bobo, cruel, mas por que não? Escuto uma última frase: ‘... volte a pensar em nossos filhos...’ Era uma decisão? Era um lamento? Era um pedido? Dois idosos sofrendo os desagradáveis efeitos de uma vida sem ternura. Dois idosos repensando seus pontos de contato. Dois idosos pensando em (re)proteger suas desejos e pensamentos com novos recursos ou disfarces. Todas as pessoas utilizam seus imaginários para suspender suas crescentes frustrações ou depressões. Seus sonhos ganham existência como defesa. Tal e qual uma bengala, os dois idosos são personagens em vôo alto, muito alto, de um mundo que se esqueceu do ritmo das idades e suas formas de envolvimento. Sinto uma tristeza absurda. Do nada, um sorriso compreensivo do homem ‘acarinha’ o meu coração. Seus braços entornam o corpo da mulher como se tocasse algo luxuoso demais. Levanto, saio e penso, ‘ninguém pode satisfazer ninguém plenamente’. Oh imaginação!

Claudia Nunes 2010