São 3 horas da
manha de uma quarta-feira e eu estou acordadíssima. Eu e minha memória
brincamos com uma nuvem densa de lembranças que cismam em permanecer acordadas.
Como crianças, elas se misturam, se jogam, sorriem e não querem dormir. Todas
são fortes, vistosas e estampam a vontade de nunca mais se esconderem... nem
mesmo por causa do tempo. Às vezes acredito que precisamos de certas mortes
para que a vida seja melhor vivida. Existem momentos em nossas vidas que são
verdadeiros testes para nós mesmos. Nada nos previne. Tudo só depois. Assim
estão as coisas agora. Assim me sinto agora: estou em “dejavouz”. Depois de trabalhar todo o dia, estava voltando para
casa quando um Opala negro, 4 portas, ano 62, simplesmente se destacou em meio
a todos os carros que passavam na Praça da Bandeira. Distraída, conversando
comigo mesma, tive o olhar preso naquele automóvel pelo brilho de uma de suas
lanternas traseiras. Eu conhecia aquela lanterna e a conhecia “de outros
carnavais!” Parada no sinal, e distraída, estava minha juventude. Silenciei
todos os pensamentos e mirei naquele objeto que carregava 14 anos da minha vida.
Num primeiro momento não acreditei. Era impossível! Acelerei meu carro. Eu
estava olhando para um carro em cuja direção estava a pessoa mais importante da
minha vida: uma amiga. Tal qual o filme, Gilda era inesquecível. Eu não via a
pessoa, via minha formação, minhas dúvidas, minha profissão, meus sonhos, minha
afetividade e... meu erro. Os carros correram e minha imaginação alcançou parte
do meu cérebro muito bem guardada: dias felizes. Nunca mais fui tão feliz na
vida. Tenho felicidades diferentes, mas não com aquela profundidade, verdade e
heroísmo. Atrás daquele volante e, em meio a fumaça do cigarro “ELA”, meu
ídolo, minha admiração, minha escola, minhas primeiras experiências
profissionais. Acelerei o carro e emparelhei. Ela estava completamente distraída.
Como ficava distraída no trânsito do Rio de Janeiro? Ela era assim: paladina.
Seus pensamentos sempre foram ágeis, direcionados e brutais. Nossa! Como ela
estava diferente! A penumbra da noite a identificava, mas não a revelava.
Pequena, cabelos bem mais curtos, rosto mais idoso. Nossa! Que bom vê-la depois
de sete anos de desencontros. Emparelhei o carro muitas vezes, mas não tinha
coragem de buzinar. Para que tirá-la da sua distração? Talvez a vida dela sejam
essas distrações solitárias... Sempre teve uma imensidão de pensamentos
diários... Sempre foi a mulher das grandes histórias ou dos grandes
acontecimentos... Eu me sentia em queda livre. Minhas vontades escaparam. Meus
desejos encontraram uma brecha bidimensional e entraram em meu baú de guardados.
Doía lembrar... Por que encontrá-la agora? Por que eu tinha que vê-la hoje?
Olhei o retrovisor e estanquei: eu estava morta! Eu estava vendo algo perdido /
passado. Pálida, tive vontade de chorar. Encontros, desencontros, casamento,
brigas, choros, amores, mestrados, viagens, fugas, cartas, discussões,
enterros, bilhetes, presentes, cartões: todo o meu baú emergia sem dó nem
piedade. Foram 14 anos em que Touro e Leão eram pura harmonia, lealdade e
confiança, apesar do fantasma do descarte fácil. Deslizes sempre foram
inadmissíveis! Agora olho àquela mulher e sinto toda a minha personalidade na
minha cara! Ela nunca me disse “vem por aqui”, seu lema era “escolha o lugar e
vamos!” Nenhum impedimento. Psicóloga de plantão, nenhum problema. Hoje eu sou!
Hoje ela foi! Buzino ou não? A UERJ se agiganta e nossos caminhos vão se
separar. A mão é voluntária para um desejo autoritário. Buzino: bip bip...
Buzino de novo: bip bip... Escuto esse “bip bip” e acelero meu coração. São
precisos dois olhares para que ela me concretize. Sinto o riso. Aceno. E ganho
a palidez, o espanto e a seriedade de um rosto que nunca aprendeu a perdoar.
Mesmo assim digo “oi bonita!” Nossa! Como foi bom dizer isso! Bonita sempre foi
dela. Expressão cuja única lembrança é dela. Sinal fechado. Tensão doída. Digo
ainda: “como vai?” Suspeito uma lágrima, mas nada... silêncio... olhar fixo em
mim... Meus olhos estão marejados... Cometi um erro: um dia, quis ser
diferente. Custo: a amizade. O sinal abriu. “Cantando” os pneus, ela arranca
com o carro. Olhei e me lembrei: iríamos à Grécia esse ano e comemoraríamos 40
e 60 anos. Eis a promessa! E nas brumas da noite carioca, dias antes do meu
aniversário, mal nos conhecemos. Por que acreditar?
Claudia Nunes 2005
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