No mundo contemporâneo e líquido, pensar educação é pensar mediação, colaboração, cognição, habilidades e solidariedade. É enfim pensar estímulos ao pensamento mais complexo de todos. É possível? Vamos tentar!
segunda-feira, 15 de julho de 2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
NOTA MAIS ALTA não é educação melhor!
'Nota
mais alta não é educação melhor'
Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de
Educação dos EUA
Erro. Ênfase em responsabilização de
professor é danosa para a educação, afirma Diane
Uma das principais
defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes
padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e
fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo
um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil,
Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos
Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de
Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George
Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o
National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes
federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e
Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas
em medição e mérito, para melhorar a educação.
Sua revisão de
conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American
School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado
no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem
provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia
entrevista concedida por Diane ao Estado.
Por que
a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de
accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos
estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências
acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram
repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não
melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.
Em sua
opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e
Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por
muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter
100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer
que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram
diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse
objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque
não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa
estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de
trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos
para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução
do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades
básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim,
porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações
mínimas.
Qual é
o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as
limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia
instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser
usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas,
educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações.
Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes,
e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas
aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria,
apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer
medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.
Na sua
avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando
ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os
conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem
ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão
fazendo seu trabalho.
E o que
ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?
Isso depende do tipo de professor. Escolas
precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais
qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais
dificuldades.
Com
base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a
melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram
em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o
estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido,
em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história,
artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto
vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase
exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva
apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as
exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem,
necessariamente, melhorar a educação.
O que
se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção
errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem
punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam
negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral.
E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a
destruí-los.
Quais são os conceitos que devem ser mantidos
e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do
que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a
educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação.
Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos
de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas
o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de
múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa
educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar
com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.
QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de
Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi
secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre
1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente
Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela
aplicação dos testes educacionais americanos.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
MEDIAÇÃO ou INTERAÇÃO?
Virou moda chamar
todos os professores de “mediadores”, mas uma grande parte não é. Mediar não é
o mesmo que interagir, não é o mesmo que ensinar. Mediação é muito mais do que
isso. De acordo com Reuven Feuerstein, um dos maiores educadores do mundo, a mediação
precisa ter algumas características muito especiais. Sem elas, não é mediação,
é apenas uma “interação”.
Vejamos as três
principais:
1 – Intencionalidade e reciprocidade
O mediador precisa
querer ensinar o conteúdo com tal paixão e decisão que fará tudo o que estiver
ao seu alcance para explicar da melhor forma possível. Adaptará a linguagem
para que a criança com deficiência realmente compreenda. Usará as tecnologias
disponíveis na escola para que o conceito se torne claro. Isso tudo chamaremos
de intencionalidade, que é a soma do objetivo com as todas as ações possíveis
para que o ensino seja realmente de qualidade. Além da intencionalidade do
professor, o aluno precisa desejar aprender. Isso se chama reciprocidade. E o
mediador usa estratégias adequadas para encantar o aluno desde o princípio,
para chamar sua atenção, para conquistar sua vontade de aprender.
2 – Transcendência
Não basta aprender
para fazer uma prova. É preciso que se aprenda de tal forma que seja possível
aplicar o conceito construído em qualquer outra situação ou contexto. A
compreensão do conceito é tal que a criança passa a aplicar o aprendido em sua
própria vida e consegue explicar qualquer nova situação em que o conceito
esteja presente.
3 – Mediação do significado
Um conceito realmente
compreendido se interliga a outros conceitos já construídos pela criança. O
mediador precisa ajudar a criança a fazer isso, principalmente uma criança com
dificuldades de aprendizagem. Mediar o significado é mostrar aos alunos onde se
aplica o conteúdo recém-aprendido, de que forma esse conteúdo aumenta a
compreensão sobre outros fatos e como o conceito pode ampliar a compreensão de
mundo da criança. Tudo isso é mediar o significado de um conceito.
Segundo Feuerstein, um mediador sempre
considera em suas atitudes essas três características anteriores; no entanto,
para que um mediador seja ainda melhor é necessário que inclua outras nove
características em sua interação com seus alunos, incluindo as crianças com
deficiências. Se as três características estiverem presentes num professor, ele
já pode ser considerado um mediador; no entanto, se tal professor apresentar em
suas atitudes as outras nove, ele será um mediador ainda melhor.
Os professores
precisam receber formação continuada para que possam desenvolver melhor sua
metodologia. Sabemos que muitos professores já agem de acordo com as
características de mediação aqui defendidas, mas para que possam ser ainda mais
eficazes é importante que suas ações sejam conscientes e planejadas, e não
apenas fruto do acaso ou de experiências – ainda que bem-sucedidas. Precisamos
nos profissionalizar cada vez mais. Precisamos agir com nossos alunos sabendo o
que queremos e onde pretendemos levá-los com nossa ajuda, e em especial para
com os alunos com deficiências. Sem esses pré-requisitos iremos interagir com
eles, mas não saberemos se as vitórias ou fracassos dependeram mais de nós ou
das próprias crianças.
Inspirado na obra Mediação
da aprendizagem na educação especial, de Gislaine Coimbra Budel e Marcos Meier
(Editora IBPEX, 2012).
Artigo escrito por
Marcos Meier e Gislaine Coimbra Budel e publicado na edição de dezembro de 2012
da revista Profissão Mestre.
Bjos Claudia Nunes
segunda-feira, 15 de abril de 2013
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
FREINET e o 'ENSINAR'
O mundo parece cada vez mais
complexo. E não apenas por conta da quantidade absurda de informações a que
podemos ter acesso, a qualquer hora da noite ou do dia. Mas, principalmente,
porque com as transformações sociais e culturais, do ponto de vista biopsíquico,
multiplicaram-se as formas de ser (família, profissional, adulto, homem,
mulher, cidadão...). Modelos mais flexíveis abriram espaço para nos
perguntarmos: como ensinar hoje?
Aparentemente tudo já foi dito,
mostrado e escrito. Aparentemente o que importa é o tanto de acessibilidade
cada um consegue em seu cotidiano, dentro das suas especificidades também
sociais e culturais, e isso vem modificando o modus operandi das formas de aprender. Ensinar, então ganha uma
nova juventude: um momento em que a ação de experimentar torna-se a melhor
estratégia para se impulsionar a vontade de aprender ou, ao menos, de se
estimular a curiosidade sobre determinado assunto.
Celestin Freinet sem um método
pedagógico rídigo, nem uma teoria propriamente científica, nos apresenta
pedagogias possíveis às ‘novas’ salas de aula: a pedagogia do trabalho, do bom
senso, da afetividade e do êxito. Todas relacionadas com uma proposta de mais
autonomia, criticidade e solidariedade no desenvolvimento das aprendizagens.
Bem antes do sócio-interacionismo de
Vigotsky e da afetividade de Wallon, Freinet nos apresenta, a partir das
técnicas pedagógicas mais colaborativas ou da vivência do aprender ‘fora
escola’, a possibilidade de se transformar aprendentes em sujeitos sociais
proativos e integrados em suas referências sociais. Ensinar, a partir do
desenvolvimento de atividades em conjunto, torna-se um momento de respeito a
maneira como os aprendentes aprendem e como constroem os próprios caminhos
neurais até o conhecimento. Ensinar torna-se criar uma vida cognitiva através
do trabalho colaborativo.
De acordo com Freinet, é preciso
observar, entender e usar as diversidades e contradições em prol do processo de
aprender. É ensinar no aprender fazendo, interagindo, criando sinergias entre o
que se sabe e o que se pode saber no grupo. Córtex pré-frontal, hipocampo e
lobos parietais acionados. É ensinar na colaboração para constantes
reelaborações das informações na memória.
Ensinar à geração multimídia demanda
então os 04 fatores importantes: trabalho, bom senso, afeto e êxito. E este
ensinar, quando à luz da neurociência, torna-se excitante e prazeroso. É
promoção das neuroplasticidades, ou seja, da mutabilidade da sala de aula, a
partir da mutabilidade neuronal de todos os cérebros em funcionamento focado. Além
das emoções estimuladas pelo sistema límbico, há a demonstração da capacidade
do encéfalo com seu córtex, tronco encefálico, bulbo e cerebelo de gerar e
assumir funções e decisões, também gerando uma suficiente e ampla comunicação
entre neurônios de forma a incentivar qualitativamente as atividades.
Ao
elaborar seu planejamento então, o educador deve criar atividades que comportem
um conjunto mínimo de conteúdos a serem assimilados durante sua realização.
Ensinar torna-se a criação de processos de adaptação internas (bio) e externas
(psicossocial) constantes. Ou seja, é exigir do cérebro sua função executiva
com prazer e crescente auto-estima.
Segundo
Lent (2008, p.289), as funções executivas “é
um conjunto de operações mentais que organizam e direcionam os diversos
domínios cognitivos categoriais para que funcionem de maneira biologicamente
adaptativa”, mas também nos informa que estas mesmas funções executivas “são de difícil mensuração (...) e se
manifestam em ambientes que demandam criatividade, respostas rápidas a
problemas novos, planejamento e flexibilidade cognitiva” (p.291). Todo o
processo, por conseguinte, acessa e estimula as amígdalas cerebrais, produzindo
memórias emocional, que ativam o córtex pré-frontal, que introduz o raciocínio,
o pensamento racional às etapas a serem enfrentadas por todos em cada
atividade.
Ensinar,
hoje, ganhar um novo estilo: um estilo mais ‘cerebelar’, mais equilibrado, com
mais postura, apesar da necessidade de uso incessante de recursos tecnológicos
no trato com a dinâmica da sala de aula. Há uma neurogênese importante no processo
de se adquirir conhecimento, mas só ativada e desenvolvida caso aja uma adição
constante de novas células para manter tanto o tônus muscular, quanto às
faculdades mentais.
Hoje
ensinar precisa ativar com intensidade áreas do aprendizado e da memória
(hipocampo). E Freinet, com sua técnicas, torna-se extremamente atual e
necessário.
terça-feira, 31 de julho de 2012
E O CÉREBRO SE REINVENTA...
Há muito tempo desisti do ‘quadro de
giz’. Língua Portuguesa e Literatura podiam ser reinventadas. Apresentá-las
paulatinamente aos aprendentes tinha que acontecer em outra dimensão, de outro
jeito e, principalmente, com outros objetivos. Duas palavras borbulham em minha
mente tal e qual um mantra: ritmo e repetição. Depois de compreendido o contexto
de onde vêm meus aprendentes, ritmo e repetição são minhas palavras de ordem.
Mas como (me) reinventar? Como ativar
essa engrenagem de sentidos em práticas mais prazerosas sem perder
significância em meio a cada etapa do ensino e da aprendizagem? Só tenho uma
opção: fazer diferente. E fazer
diferente era me articular com outras formas de ensinar, outros recursos,
outros olhares sobre meu aprendente; fazer diferente era provocar mutações em
mim, em minha formação e, por consequência, em minha sala de aula.
Primeiro movimento: entender a dinâmica
intrínseca da minha sala de aula. Ai eu reconheci que o tempo de aprendizagem
deve ser usado (e organizado) de outra maneira: eu precisava causar surpresas,
sustos, estranhamentos. Então segundo movimento: por motivação, ritmo e
repetição, a aula precisava se articular dentro de práticas cujos resultados
fossem descobertas variadas e a produção de novas conexões cerebrais e mentais
em torno dos conteúdos. Mais do que quantificar era preciso qualificar as
mentes curiosas para aprender, ainda que não se percebam assim.
Ainda hoje em dia, diante de um
educador encontram-se mentes com potenciais de ação inimagináveis e que, por
isso, demandam transformações nas estruturas de ensino. Ainda hoje em dia,
diante de um educador encontram-se 86 milhões de neurônios cheios de informação
e totalmente interconectados esperando estímulos (excitações) que empreendam
dinâmicas neocorticais (sinápticas) variadas. Estes estímulos (desafios, atividades
individuais, trabalhos em grupo e/ou dinâmicas) são importantes para nutrir,
tonificar e fortalecer os cérebros de maneira a prevenir, ampliar e resgatar capacidades
e habilidades mentais; além disso, entram em perspectiva com as expectativas
discentes porque são sentidas como mais agradáveis, reais e focadas em seus
contextos pessoais ou intelectuais.
Ao rompermos com conjuntos estáticos
de comportamentos com a crença de que ‘sucesso do passado deve ser
reproduzido’, ou ao rompermos com a estrutura tradicional de ministrar aula,
rompemos com a linearidade do pensamento, rompemos com as zonas reflexivas de
conforto (exercícios descontextualizados) e rompemos com determinadas
desconcentrações, desatenções e indisciplinas. É uma questão do timing perceptivo docente.
Numa turma de 2º ano, do ensino médio,
à noite, eu tenho 32 alunos frequentes. Em sua maioria, rapazes. Desde o início
do ano letivo, eu percebia forte indiferença com a Literatura, além de grande
dificuldade com a Língua Portuguesa. Enquanto outras turmas de 2º ano iam muito
bem, esta turma teve primeiras avaliações muito ruins. Ai era a minha vez de
pensar: o que fazer? como promovê-los?
Passei um fim de semana pensando. Eu
não tinha feito um link com esses
cérebros. Minhas práticas não foram pertinentes. Eu tinha a afetividade
(sistema límbico) equilibrada, mas não alcançara o patamar do neocórtex de
maneira que eles aprendessem para a vida, para a vivência autônoma da própria
subjetividade em outros ambientes. Era então preciso influenciar o sistema
nervoso diretamente e provocar a evocação mnemônica pessoal de maneira mais
contundente. Era preciso mudar o comportamento cognitivo. Mas antes, eu
precisava mudar.
No domingo, sem conseguir concentração
para leitura, deixei a TV no canal MTV e fiquei vendo clipes de músicas. De repente, tive um insight: todos gostam de música! Cada clipe conta uma história. A
partir dessas historias posso trabalhar fundamentos da literatura e língua
portuguesa. Mas como seria a dinâmica? Com a música, eu atingiria os 05
sentidos, modificaria os ritmos intrínsecos dos cérebros e atingiria emoções
apropriadas, memórias e certos comportamentos. Além disso, segundo Lent, ao ser estimulado e dependendo do ambiente,
o cérebro se reorganiza, se adapta e aprende. Mas como?
Bem, pensei muito e fiz o seguinte: ao
final da aula, apresentei a ideia sobre os clipes e pedi que trouxessem, em
DVD, clipes de HIP-HOP que contivessem uma história, ou seja, clipes cujas
letras das músicas fossem representadas por histórias. Eles ficaram animados,
perguntaram mil coisas e de repente eu tinha muito material para escolher. Meus
cérebros estavam atentos, participativos e ansiosos pelo que eu faria. Separei
aleatoriamente os clipes e levei na semana seguinte.
Interessante como a presença de
material eletrônico em sala já dá um up
à futura dinâmica. Eles se interessam, olham, se aproximam e se oferecem para
ajudar a ligar tudo: eles mexem em tudo sem medo. Depois de um tempo percebo
que não há o ‘entra-e-sai’ de sala porque a perspectiva de algo diferente e a
curiosidade são tão grandes que o ‘fora-de-sala’ é esquecido. Meus cérebros
estão em plasticidade total e, segundo Lent, respondendo positivamente aos
estímulos do ambiente não apenas com
alterações funcionais imediatas, mas também com alterações de longa duração,
algumas das quais podem se tornar permanentes.
Eles montaram tudo. Eu os deixei
sentar em qualquer lugar, mesmo em cima da mesa. Ações iniciais: eles viram
cada clipe e anotaram (descreveram) que historias foram vistas (narradas). Eles
viram 08 clipes. Depois troquei todas as anotações e pedi que completassem a
história do colega com detalhes esquecidos, se fosse o caso (dissertação e
argumentação). Ai ‘destroquei’ tudo e pedi, oralmente, que separassem alguns
elementos a partir de seguintes perguntas: onde aconteceu, com quem aconteceu,
quando aconteceu, como aconteceu (elementos da narrativa). A partir disso
discutimos alguns clipes (valores, ética, perda) e pedi que refizessem os
finais de dois clipes a escolher (escrita e interpretação). Ao final apresentei
os elementos da narrativa e expliquei o que é texto (tipos de) e suas formas de
interpretação.
Na aula seguinte, aproveitamos as
escritas e trabalhamos o substantivo, o adjetivo, o artigo e alguns pronomes
(classes de palavras). Menos classificação e mais compreensão sobre a
participação dessas classes de palavras nos sentidos que queremos dar aos
nossos pensamentos. Ao final do trabalho e até hoje escuto: “e ai professora,
vamos fazer algo diferente hoje?” Ou “poxa professora, entendi muito melhor
agora o que é interpretar, é difícil mesmo né?” Ou ainda ‘não perco mais suas
aulas, sabe-se lá o que vai acontecer?”
Estou satisfeita, porém o movimento de
transformação (e inovação) não pode mais retroceder: não posso mais me dar ao
luxo de perder esses cérebros para o nada; preciso continuar ‘antenada’ e
manter a motivação, o ritmo e a repetição. As mudanças geraram novas
necessidades de aprender, de conhecer, de entender outros assuntos; e geraram também
confiança para perguntar o que quer que fosse. Estavam motivados! E por que, de
repente, essa motivação?
A dinâmica abriu espaço para que eles
se apresentassem como seres pensantes reais, proporcionou abertura para
criatividades cognitivas objetivas e melhoria nos relacionamentos
interpessoais. O desenvolvimento da atividade gerou reflexos positivos no
contexto da sala de aula e aumento das capacidades verbal, auditiva e visual da
maioria dos aprendentes. Minha sala de aula estava emocionada!
Faço minha então, a questão que
levanta Lent: não é a educação a prática
social que objetiva mudar as pessoas, capacitá-las a realizar tarefas e
comportamentos, ensiná-las a executar operações mentais sofisticadas e
complexas e viver em sociedade segundo normas vantajosas para as coletividades?
SIM! Então, um bom meio para isso é fortalecer o sistema atencional do
aprendente com práticas desafiantes cuja repercussão seja uma forte alteração
cerebral e o uso pleno das funções cognitivas em geral.
A mudança de ritmo da sala e a
repetição de atividades diferentes vão incorporando outros hábitos à cognição
discente, o que gera eficiência no tratamento dos desafios seguintes. É afetar
o corpo caloso no meio dos hemisférios cerebrais e energizar a mielinização das
sinapses. É entender que para aprender, é preciso prestar atenção. E pode-se
aprender a prestar atenção.
Hoje realmente outra questão me
incomoda: por que tantas reclamações sobre a superficialidade das cognições de
nossos alunos? Se esta suposta superficilidade for um fato, qual é o papel do
professor hoje? Só reclamar? Eu reconheço que há outros senões embutidos nessas
reclamações, mas será que há disposição para mudar e assim criar um clima melhor
na sala de aula, quiça na escola? Eu não sei. Isto demandaria outra análise
séria. Porém acredito que seja preciso outras posturas profissionais diante do
outro que se desconhece e que está ali, na escola, na expectativa de aprender
ou de ser (fazer) diferente.
Mesmo hoje em tempos líquidos, mais
velozes, de forte integração das novas tecnologias virtuais, continuamos
recebendo aprendentes em nossas escolas. Aprendentes com características
cognitivas diferentes? É, pode ser, esta é uma discussão que vai longe, mas são
aprendentes, estão dentro da escola e precisam aprender a aprender para fazer,
ser, conhecer e conviver em sociedade. E ai ao professor não cabe se isentar
deste processo: somos muito importantes sim!!!!! Só que precisamos remodelar
nossas práticas diante dos ‘novos’ alunos e seus ‘novos’ comportamentos em
geral.
Profa Ms Claudia Nunes
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)











