quinta-feira, 30 de maio de 2013

NOTA MAIS ALTA não é educação melhor!

'Nota mais alta não é educação melhor'
Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane

Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.
Sua revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.

Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.

Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.

Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.

Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.

E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?
Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.

Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.

O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.
Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.

QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.



segunda-feira, 20 de maio de 2013

MEDIAÇÃO ou INTERAÇÃO?


Virou moda chamar todos os professores de “mediadores”, mas uma grande parte não é. Mediar não é o mesmo que interagir, não é o mesmo que ensinar. Mediação é muito mais do que isso. De acordo com Reuven Feuerstein, um dos maiores educadores do mundo, a mediação precisa ter algumas características muito especiais. Sem elas, não é mediação, é apenas uma “interação”.
Vejamos as três principais:
1 – Intencionalidade e reciprocidade
O mediador precisa querer ensinar o conteúdo com tal paixão e decisão que fará tudo o que estiver ao seu alcance para explicar da melhor forma possível. Adaptará a linguagem para que a criança com deficiência realmente compreenda. Usará as tecnologias disponíveis na escola para que o conceito se torne claro. Isso tudo chamaremos de intencionalidade, que é a soma do objetivo com as todas as ações possíveis para que o ensino seja realmente de qualidade. Além da intencionalidade do professor, o aluno precisa desejar aprender. Isso se chama reciprocidade. E o mediador usa estratégias adequadas para encantar o aluno desde o princípio, para chamar sua atenção, para conquistar sua vontade de aprender.
2 – Transcendência
Não basta aprender para fazer uma prova. É preciso que se aprenda de tal forma que seja possível aplicar o conceito construído em qualquer outra situação ou contexto. A compreensão do conceito é tal que a criança passa a aplicar o aprendido em sua própria vida e consegue explicar qualquer nova situação em que o conceito esteja presente.
3 – Mediação do significado
Um conceito realmente compreendido se interliga a outros conceitos já construídos pela criança. O mediador precisa ajudar a criança a fazer isso, principalmente uma criança com dificuldades de aprendizagem. Mediar o significado é mostrar aos alunos onde se aplica o conteúdo recém-aprendido, de que forma esse conteúdo aumenta a compreensão sobre outros fatos e como o conceito pode ampliar a compreensão de mundo da criança. Tudo isso é mediar o significado de um conceito. 
Segundo Feuerstein, um mediador sempre considera em suas atitudes essas três características anteriores; no entanto, para que um mediador seja ainda melhor é necessário que inclua outras nove características em sua interação com seus alunos, incluindo as crianças com deficiências. Se as três características estiverem presentes num professor, ele já pode ser considerado um mediador; no entanto, se tal professor apresentar em suas atitudes as outras nove, ele será um mediador ainda melhor.
Os professores precisam receber formação continuada para que possam desenvolver melhor sua metodologia. Sabemos que muitos professores já agem de acordo com as características de mediação aqui defendidas, mas para que possam ser ainda mais eficazes é importante que suas ações sejam conscientes e planejadas, e não apenas fruto do acaso ou de experiências – ainda que bem-sucedidas. Precisamos nos profissionalizar cada vez mais. Precisamos agir com nossos alunos sabendo o que queremos e onde pretendemos levá-los com nossa ajuda, e em especial para com os alunos com deficiências. Sem esses pré-requisitos iremos interagir com eles, mas não saberemos se as vitórias ou fracassos dependeram mais de nós ou das próprias crianças.
Inspirado na obra Mediação da aprendizagem na educação especial, de Gislaine Coimbra Budel e Marcos Meier (Editora IBPEX, 2012).

Artigo escrito por Marcos Meier e Gislaine Coimbra Budel e publicado na edição de dezembro de 2012 da revista Profissão Mestre.

Bjos Claudia Nunes

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

FREINET e o 'ENSINAR'


            O mundo parece cada vez mais complexo. E não apenas por conta da quantidade absurda de informações a que podemos ter acesso, a qualquer hora da noite ou do dia. Mas, principalmente, porque com as transformações sociais e culturais, do ponto de vista biopsíquico, multiplicaram-se as formas de ser (família, profissional, adulto, homem, mulher, cidadão...). Modelos mais flexíveis abriram espaço para nos perguntarmos: como ensinar hoje?
            Aparentemente tudo já foi dito, mostrado e escrito. Aparentemente o que importa é o tanto de acessibilidade cada um consegue em seu cotidiano, dentro das suas especificidades também sociais e culturais, e isso vem modificando o modus operandi das formas de aprender. Ensinar, então ganha uma nova juventude: um momento em que a ação de experimentar torna-se a melhor estratégia para se impulsionar a vontade de aprender ou, ao menos, de se estimular a curiosidade sobre determinado assunto.
            Celestin Freinet sem um método pedagógico rídigo, nem uma teoria propriamente científica, nos apresenta pedagogias possíveis às ‘novas’ salas de aula: a pedagogia do trabalho, do bom senso, da afetividade e do êxito. Todas relacionadas com uma proposta de mais autonomia, criticidade e solidariedade no desenvolvimento das aprendizagens.
            Bem antes do sócio-interacionismo de Vigotsky e da afetividade de Wallon, Freinet nos apresenta, a partir das técnicas pedagógicas mais colaborativas ou da vivência do aprender ‘fora escola’, a possibilidade de se transformar aprendentes em sujeitos sociais proativos e integrados em suas referências sociais. Ensinar, a partir do desenvolvimento de atividades em conjunto, torna-se um momento de respeito a maneira como os aprendentes aprendem e como constroem os próprios caminhos neurais até o conhecimento. Ensinar torna-se criar uma vida cognitiva através do trabalho colaborativo.
            De acordo com Freinet, é preciso observar, entender e usar as diversidades e contradições em prol do processo de aprender. É ensinar no aprender fazendo, interagindo, criando sinergias entre o que se sabe e o que se pode saber no grupo. Córtex pré-frontal, hipocampo e lobos parietais acionados. É ensinar na colaboração para constantes reelaborações das informações na memória.
            Ensinar à geração multimídia demanda então os 04 fatores importantes: trabalho, bom senso, afeto e êxito. E este ensinar, quando à luz da neurociência, torna-se excitante e prazeroso. É promoção das neuroplasticidades, ou seja, da mutabilidade da sala de aula, a partir da mutabilidade neuronal de todos os cérebros em funcionamento focado. Além das emoções estimuladas pelo sistema límbico, há a demonstração da capacidade do encéfalo com seu córtex, tronco encefálico, bulbo e cerebelo de gerar e assumir funções e decisões, também gerando uma suficiente e ampla comunicação entre neurônios de forma a incentivar qualitativamente as atividades.
Ao elaborar seu planejamento então, o educador deve criar atividades que comportem um conjunto mínimo de conteúdos a serem assimilados durante sua realização. Ensinar torna-se a criação de processos de adaptação internas (bio) e externas (psicossocial) constantes. Ou seja, é exigir do cérebro sua função executiva com prazer e crescente auto-estima.
Segundo Lent (2008, p.289), as funções executivas “é um conjunto de operações mentais que organizam e direcionam os diversos domínios cognitivos categoriais para que funcionem de maneira biologicamente adaptativa”, mas também nos informa que estas mesmas funções executivas “são de difícil mensuração (...) e se manifestam em ambientes que demandam criatividade, respostas rápidas a problemas novos, planejamento e flexibilidade cognitiva” (p.291). Todo o processo, por conseguinte, acessa e estimula as amígdalas cerebrais, produzindo memórias emocional, que ativam o córtex pré-frontal, que introduz o raciocínio, o pensamento racional às etapas a serem enfrentadas por todos em cada atividade.
Ensinar, hoje, ganhar um novo estilo: um estilo mais ‘cerebelar’, mais equilibrado, com mais postura, apesar da necessidade de uso incessante de recursos tecnológicos no trato com a dinâmica da sala de aula. Há uma neurogênese importante no processo de se adquirir conhecimento, mas só ativada e desenvolvida caso aja uma adição constante de novas células para manter tanto o tônus muscular, quanto às faculdades mentais.
Hoje ensinar precisa ativar com intensidade áreas do aprendizado e da memória (hipocampo). E Freinet, com sua técnicas, torna-se extremamente atual e necessário.

Profa Claudia Nunes

terça-feira, 31 de julho de 2012

E O CÉREBRO SE REINVENTA...


Há muito tempo desisti do ‘quadro de giz’. Língua Portuguesa e Literatura podiam ser reinventadas. Apresentá-las paulatinamente aos aprendentes tinha que acontecer em outra dimensão, de outro jeito e, principalmente, com outros objetivos. Duas palavras borbulham em minha mente tal e qual um mantra: ritmo e repetição. Depois de compreendido o contexto de onde vêm meus aprendentes, ritmo e repetição são minhas palavras de ordem.
Mas como (me) reinventar? Como ativar essa engrenagem de sentidos em práticas mais prazerosas sem perder significância em meio a cada etapa do ensino e da aprendizagem? Só tenho uma opção: fazer diferente. E fazer diferente era me articular com outras formas de ensinar, outros recursos, outros olhares sobre meu aprendente; fazer diferente era provocar mutações em mim, em minha formação e, por consequência, em minha sala de aula.
Primeiro movimento: entender a dinâmica intrínseca da minha sala de aula. Ai eu reconheci que o tempo de aprendizagem deve ser usado (e organizado) de outra maneira: eu precisava causar surpresas, sustos, estranhamentos. Então segundo movimento: por motivação, ritmo e repetição, a aula precisava se articular dentro de práticas cujos resultados fossem descobertas variadas e a produção de novas conexões cerebrais e mentais em torno dos conteúdos. Mais do que quantificar era preciso qualificar as mentes curiosas para aprender, ainda que não se percebam assim.
Ainda hoje em dia, diante de um educador encontram-se mentes com potenciais de ação inimagináveis e que, por isso, demandam transformações nas estruturas de ensino. Ainda hoje em dia, diante de um educador encontram-se 86 milhões de neurônios cheios de informação e totalmente interconectados esperando estímulos (excitações) que empreendam dinâmicas neocorticais (sinápticas) variadas. Estes estímulos (desafios, atividades individuais, trabalhos em grupo e/ou dinâmicas) são importantes para nutrir, tonificar e fortalecer os cérebros de maneira a prevenir, ampliar e resgatar capacidades e habilidades mentais; além disso, entram em perspectiva com as expectativas discentes porque são sentidas como mais agradáveis, reais e focadas em seus contextos pessoais ou intelectuais.
Ao rompermos com conjuntos estáticos de comportamentos com a crença de que ‘sucesso do passado deve ser reproduzido’, ou ao rompermos com a estrutura tradicional de ministrar aula, rompemos com a linearidade do pensamento, rompemos com as zonas reflexivas de conforto (exercícios descontextualizados) e rompemos com determinadas desconcentrações, desatenções e indisciplinas. É uma questão do timing perceptivo docente.
Numa turma de 2º ano, do ensino médio, à noite, eu tenho 32 alunos frequentes. Em sua maioria, rapazes. Desde o início do ano letivo, eu percebia forte indiferença com a Literatura, além de grande dificuldade com a Língua Portuguesa. Enquanto outras turmas de 2º ano iam muito bem, esta turma teve primeiras avaliações muito ruins. Ai era a minha vez de pensar: o que fazer? como promovê-los?
Passei um fim de semana pensando. Eu não tinha feito um link com esses cérebros. Minhas práticas não foram pertinentes. Eu tinha a afetividade (sistema límbico) equilibrada, mas não alcançara o patamar do neocórtex de maneira que eles aprendessem para a vida, para a vivência autônoma da própria subjetividade em outros ambientes. Era então preciso influenciar o sistema nervoso diretamente e provocar a evocação mnemônica pessoal de maneira mais contundente. Era preciso mudar o comportamento cognitivo. Mas antes, eu precisava mudar.
No domingo, sem conseguir concentração para leitura, deixei a TV no canal MTV e fiquei vendo clipes de músicas. De repente, tive um insight: todos gostam de música! Cada clipe conta uma história. A partir dessas historias posso trabalhar fundamentos da literatura e língua portuguesa. Mas como seria a dinâmica? Com a música, eu atingiria os 05 sentidos, modificaria os ritmos intrínsecos dos cérebros e atingiria emoções apropriadas, memórias e certos comportamentos. Além disso, segundo Lent, ao ser estimulado e dependendo do ambiente, o cérebro se reorganiza, se adapta e aprende. Mas como?
Bem, pensei muito e fiz o seguinte: ao final da aula, apresentei a ideia sobre os clipes e pedi que trouxessem, em DVD, clipes de HIP-HOP que contivessem uma história, ou seja, clipes cujas letras das músicas fossem representadas por histórias. Eles ficaram animados, perguntaram mil coisas e de repente eu tinha muito material para escolher. Meus cérebros estavam atentos, participativos e ansiosos pelo que eu faria. Separei aleatoriamente os clipes e levei na semana seguinte.
Interessante como a presença de material eletrônico em sala já dá um up à futura dinâmica. Eles se interessam, olham, se aproximam e se oferecem para ajudar a ligar tudo: eles mexem em tudo sem medo. Depois de um tempo percebo que não há o ‘entra-e-sai’ de sala porque a perspectiva de algo diferente e a curiosidade são tão grandes que o ‘fora-de-sala’ é esquecido. Meus cérebros estão em plasticidade total e, segundo Lent, respondendo positivamente aos estímulos do ambiente não apenas com alterações funcionais imediatas, mas também com alterações de longa duração, algumas das quais podem se tornar permanentes.
Eles montaram tudo. Eu os deixei sentar em qualquer lugar, mesmo em cima da mesa. Ações iniciais: eles viram cada clipe e anotaram (descreveram) que historias foram vistas (narradas). Eles viram 08 clipes. Depois troquei todas as anotações e pedi que completassem a história do colega com detalhes esquecidos, se fosse o caso (dissertação e argumentação). Ai ‘destroquei’ tudo e pedi, oralmente, que separassem alguns elementos a partir de seguintes perguntas: onde aconteceu, com quem aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu (elementos da narrativa). A partir disso discutimos alguns clipes (valores, ética, perda) e pedi que refizessem os finais de dois clipes a escolher (escrita e interpretação). Ao final apresentei os elementos da narrativa e expliquei o que é texto (tipos de) e suas formas de interpretação.
Na aula seguinte, aproveitamos as escritas e trabalhamos o substantivo, o adjetivo, o artigo e alguns pronomes (classes de palavras). Menos classificação e mais compreensão sobre a participação dessas classes de palavras nos sentidos que queremos dar aos nossos pensamentos. Ao final do trabalho e até hoje escuto: “e ai professora, vamos fazer algo diferente hoje?” Ou “poxa professora, entendi muito melhor agora o que é interpretar, é difícil mesmo né?” Ou ainda ‘não perco mais suas aulas, sabe-se lá o que vai acontecer?”
Estou satisfeita, porém o movimento de transformação (e inovação) não pode mais retroceder: não posso mais me dar ao luxo de perder esses cérebros para o nada; preciso continuar ‘antenada’ e manter a motivação, o ritmo e a repetição. As mudanças geraram novas necessidades de aprender, de conhecer, de entender outros assuntos; e geraram também confiança para perguntar o que quer que fosse. Estavam motivados! E por que, de repente, essa motivação?
A dinâmica abriu espaço para que eles se apresentassem como seres pensantes reais, proporcionou abertura para criatividades cognitivas objetivas e melhoria nos relacionamentos interpessoais. O desenvolvimento da atividade gerou reflexos positivos no contexto da sala de aula e aumento das capacidades verbal, auditiva e visual da maioria dos aprendentes. Minha sala de aula estava emocionada!
Faço minha então, a questão que levanta Lent: não é a educação a prática social que objetiva mudar as pessoas, capacitá-las a realizar tarefas e comportamentos, ensiná-las a executar operações mentais sofisticadas e complexas e viver em sociedade segundo normas vantajosas para as coletividades? SIM! Então, um bom meio para isso é fortalecer o sistema atencional do aprendente com práticas desafiantes cuja repercussão seja uma forte alteração cerebral e o uso pleno das funções cognitivas em geral.
A mudança de ritmo da sala e a repetição de atividades diferentes vão incorporando outros hábitos à cognição discente, o que gera eficiência no tratamento dos desafios seguintes. É afetar o corpo caloso no meio dos hemisférios cerebrais e energizar a mielinização das sinapses. É entender que para aprender, é preciso prestar atenção. E pode-se aprender a prestar atenção.
Hoje realmente outra questão me incomoda: por que tantas reclamações sobre a superficialidade das cognições de nossos alunos? Se esta suposta superficilidade for um fato, qual é o papel do professor hoje? Só reclamar? Eu reconheço que há outros senões embutidos nessas reclamações, mas será que há disposição para mudar e assim criar um clima melhor na sala de aula, quiça na escola? Eu não sei. Isto demandaria outra análise séria. Porém acredito que seja preciso outras posturas profissionais diante do outro que se desconhece e que está ali, na escola, na expectativa de aprender ou de ser (fazer) diferente.
Mesmo hoje em tempos líquidos, mais velozes, de forte integração das novas tecnologias virtuais, continuamos recebendo aprendentes em nossas escolas. Aprendentes com características cognitivas diferentes? É, pode ser, esta é uma discussão que vai longe, mas são aprendentes, estão dentro da escola e precisam aprender a aprender para fazer, ser, conhecer e conviver em sociedade. E ai ao professor não cabe se isentar deste processo: somos muito importantes sim!!!!! Só que precisamos remodelar nossas práticas diante dos ‘novos’ alunos e seus ‘novos’ comportamentos em geral.

Profa Ms Claudia Nunes